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Entrevista do fantastico sobre morte de mc daleste

 

entrevista do fantastico sobre o mc daleste

O Fantástico apresenta uma investigação jornalística sobre a violência no funk de São Paulo.

Há oito dias, o cantor MC Daleste foi assassinado com dois tiros, durante um show na periferia de Campinas.

No instante do crime, muita gente estava filmando. Agora, a polícia busca uma imagem que desvende o mistério: quem matou Daleste?

Uma foto obtida com exclusividade pelo Fantástico, foi tirada segundos antes do MC Daleste tomar um tiro  no peito, no meio de um show. O autor da imagem: um dos melhores amigos do cantor.

“Ele foi para o meu lado, eu fui mais para trás, tirei a foto, foi a hora que o cara atirou”, lembra o fotógrafo. Renato Avaia.

O impacto do tiro foi testemunhado por milhares de fãs. Muitos filmavam o show e registraram o crime. As cenas mostram, de vários ângulos, Daleste sendo atingido.

Foram dois disparos em direção ao cantor. O primeiro passa de raspão, entre o braço e o corpo. Ele se assusta e reclama.

“A gente achou estranho, ele foi até nós, mostrou, se fez alguma coisa. Eu falei: volta mano, vai trocar o certo pelo duvidoso? Ele não, preferiu fitar, ficar em cima do palco”, conta Rodrigo Pellegrini.

O MC volta a cantar. Menos de 2 minutos depois, veio o tiro fatal.

“Quando ele caiu, ele já caiu olhando para o meu olho. Ele falou: ’Pet, eu morri?’ Eu falei: não mano, você não morreu, você vai comigo. Ele estava acho que meio em estado de choque nessa situação, eu peguei ele, ele mostrou onde estancou a mão, lembra MC Pet.

A bala tinha atravessado o peito dele. Ele cai. Se levanta. Ergue a camisa e mostra o ferimento para o irmão. Tumulto no palco. Confusão na plateia.

“Eu olhei para o lado, o público tudo correndo, ninguém mais no palco, só eu e o irmão dele. Foi a hora que ele levantou, viu que tava saindo sangue, conta Renato.

A morte foi notícia no mundo todo. Mas quem era o MC Daleste, um jovem de 20 anos, um dos cantores mais populares da periferia paulistana?

Daleste usava esse nome em homenagem à Zona Leste de São Paulo, onde nasceu e vivia.

“Eu falei: você vai ser MC Daleste, porque fica só na Zona Leste, não sai, depois ele fez show no Brasil todo”, diz o irmão Rodrigo Pedreira.

“A gente mora na periferia, ele mesmo com todo o sucesso, ganhando todo o dinheiro, a gente nunca saiu daqui, onde a gente gostava de estar, onde tem amigos, destaca Marcelo de Souza Almeida, cunhado de Daleste e motorista dos shows.

Foi em uma casa simples que o marceneiro Rolland criou Daniel, verdadeiro nome de Daleste, e mais três filhos. Viúvo, ele mora na periferia até hoje. E decorou o quarto com os presentes que ganhou do filho famoso.

“Televisão, telescópio, isso aí tudo ele me deu, helicóptero. Tudo ele me dá”, afirma Rolland.

O filho herdou do pai o gosto pelas jóias.

“Ele gostava jóias. Muito. É um prazer que eu também gosto. Às vezes eu ponho em todos os dedos, todo mundo que me vê na rua é assim. Eu não sou cigano, mas eu adoro jóia”, admite o pai.

Daleste era muito ligado à família, mas saiu cedo de casa para morar com a namorada. Os dois se conheceram na escola. Viviam juntos havia cinco anos.

Fantástico: A melhor lembrança que você tem dele, qual é?

Érica: Era ouvir ele cantando no chuveiro. A vida dele era isso. Era cantar e criar música, ele era um compositor. Não só de funk, qualquer tipo de música ele fazia. E ele pegava lições de vida também, histórias de vida, e transformava em música, cantava. A vida dele era cantar, cantar. Só isso.

Daleste começou cedo no funk, o primeiro show foi com 16 anos. Escrevia as próprias músicas. As letras do começo de carreira faziam apologia ao crime e acusações à polícia. Mas nos últimos anos, Daleste mudou o estilo.

Esse tipo de funk é cada vez mais popular na periferia de São Paulo.

“O funk de ostentação é o funk que conta o sonho da galera da comunidade. A princípio isso realmente era um sonho, e hoje graças a Deus a maioria dos artistas de funk ostentação já estão conseguindo viver essa ostentação que eles tão pregando”, analisa o produtor de videoclipe Konrad Dantas.

“Começou em meados de 2008, mais ou menos, na cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, e a dupla que mais difundiu essa ramificação do funk foi uma dupla chamada de Backdi e Bio G3. É classe a, nóis temos carro, moto e dinheiro”, completa o produtor.

Konrad foi um dos pioneiros a produzir vídeoclipes em que funkeiros ostentam roupas de marca, mulheres bonitas e carros poderosos. Eles são divulgados principalmente pela internet. Alguns são vistos milhões de vezes.

O videoclipe que teve mais acesso, quase 29 milhões de acessos. Em cinco dias deu um milhão de exibições.

Daleste não foi o primeiro caso de morte violenta do funk paulista. Desde 2010, 05 MCs, o nome que se dá aos cantores de funk e rap, foram assassinados no estado.

Nenhum acusado foi preso até agora. A secretaria de Segurança Pública informou por telefone que as investigações estão avançadas e existe uma lista de suspeitos identificados.

“A gente tinha muito medo de acontecer alguma coisa por ter acontecido com outros MCs, outros cantores. Mas ameaça ele nunca, se teve nunca ele não avisou ninguém”, diz a viúva Érica Teixeira Franco.

A última apresentação do MC Daleste aconteceu  neste palco montado em cima de um trailer, há uma semana, na periferia de Campinas, interior de São Paulo.

O cantor estava no meio do palco quando tomou um tiro no peito, disparado a uma distância de cerca de 30 metros, segundo a investigação.

Como não tinha carro de polícia nem ambulância por perto, os amigos decidiram socorrer o cantor no próprio carro. Mas eles não sabiam para onde levá-lo. E demoraram quase meia hora para chegar até um hospital em Paulínia, cidade vizinha a Campinas.

”No decorrer desse trajeto a gente foi ficando mais desesperado porque fui vendo que ele não estava tão bem”

“Ele falou, chegou até me falar uma vez: ‘pô eu pensava que doía tomar tiro’, porque ele nunca tinha passado por isso, ‘mas não dói nada, Pet’. Mas ele estava perdendo muito sangue, ele estava ficando fraco, aí ele falou que avoz dele foi ficando distante”, diz Pet.

“Os lábios foram ficando brancos, o olho foi ficando fundo, tipo, a gente olhava mas eu já não sentia ele aí, entendeu?”, conta Marcelo.

“E ele ficou aguentando. E eu: ‘Você está respirando legal?’ E ele: ‘pô, estou respirando legal, tá normal, só estou sentindo que está saindo muito sangue, tô ficando um pouco meio tonto’. Aí eu, foi na hora que a gente chegou no hospital, coloquei, peguei ele e coloquei em cima da maca e então fui segurando na mão dele até a sala de cirurga, né?”, conta Pet.

Em menos de uma hora, Daleste estava morto. Uma semana depois, o assassinato do cantor desafia a polícia.

“Foi premeditado, planejado, imagino que não foi do dia para noite, pela complexidade do disparo. O atirador, acreditamos que ele estudou o local antes de praticar o crime”, diz o delegado Flávio de Carvalho.

O delegado do caso ainda não tem uma pista segura. E investiga todas as hipóteses.

“Tanto do crime passional, desentendimento em relação aos organizadores da festa, tanto quanto ao mundo do crime propriamente dito, os funkeiros”, analisa o delegado.

Quem matou o MC Daleste e por quê?  As imagens do momento do crime são fundamentais para investigação.

Renato tem 19 anos, era amigo e fã do cantor MC Daleste. A amizade dos dois era tão grande que o cantor comprou uma máquina e deu  para que ele registrasse os melhores momentos dos shows. Naquela noite, Renato estava no palco e fez algumas fotos. Logo depois, o amigo foi baleado e acabou morrendo no hospital.

“Essas imagens ninguém tem. Eu tô do lado da caixa”, conta um amigo.

O amigo revela que Daleste fez um pedido antes de entrar no hospital.

“Falou: ‘pega a câmera aí, tira uma foto de mim’. Eu falei: não vou tirar uma foto sua porque eu ainda vou tirar muita foto sua. Aí foi na hora que nós colocou ele na maca e ele entrou dentro do hospital”, lembra Renato.

Esse registro Renato não fez. Mas ele cedeu com exclusividade ao Fantástico as 18 fotos que tirou durante o show. A nosso pedido, o perito Nelson Massini analisou as imagens.

“De todo o material que eu examinei, essas fotos são absolutamente fundamentais. Elas retratam e certamente revelam o assassino disperso aí nessa multidão”, afirma o perito e professor da Uerj, Nelson Massini.

Para o perito, confrontar a trajetória dos tiros, as marcas das balas no trailer, com essas fotos, vai indicar o lugar exato onde estava o atirador.

“Pela qualidade e pela abrangência que esse grupo de fotos faz é possível. Por aí é possível dar uma verdadeira contribuição para se chegar ao verdadeiro homicida”, conclui Massini.

O pai diz que só vê um motivo para o assassinato.

“Inveja, inveja… Inveja, inveja”, lamenta o marceneiro Rolland Ribeiro Pellegrini.

E se emociona ao ouvir a música que o filho fez especialmente para ele.

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